21/01/2018 19h32 - Atualizado em 21/01/2018 19h32

Professor Pedrinho se aposenta, mas deixa seu legado


Por: Bruna Taiski / Hojemais
 

Em 1953 nasceu Pedro Machado Gonçalves, natural de Água Clara; seu pai - Sebastião Carlos Gonçalves - era ferroviário; ‘Potiguara velho’. Aos oito anos, mudou-se para Três Lagoas, no bairro Santa Luzia, com toda a família. De origem humilde, o pai sempre lhe dizia: ‘Estuda menino; estuda muito e leva em paralelo o que você gosta de fazer junto com a escola sempre’. E foi o que ele fez.

A história de Pedro - Pedrinho Potiguara ou Professor Pedrinho - poderia ser narrada pelas mais de 10 mil pessoas que tiveram suas vidas transformadas através do esporte e da cidadania. Seu trabalho é uma lição de vida, que inspira a muitos e traz orgulho a todos os três-lagoenses apaixonados pelo mundo dos esportes.

Pedrinho é casado com Maria Aparecida de Souza - a parceira de todas as horas – e tem três filhos: Vinicius, Pedro Junior e Lívia Cristina - dos quais fala em tom de um pai orgulhoso. Todos os filhos são formados e seguem o mesmo caminho que o pai escolheu: o da educação.

O mais velho, Vinícius, é professor de educação física e diretor da Escola Municipal Eufrosina Pinto; a filha do meio trabalha na secretaria da Escola Municipal Maria Eulália Vieira e o caçulinha - Pedro Júnior - se formou em Educação Física na última quarta-feira (17). "Meu filho mais novo - Pedro Júnior - com certeza deve dar sequência ao meu trabalho e brilhar muito mais do que eu; é tudo que nos queremos - é o orgulho da família" - diz.

 

Ele atuou como jogador no Legionário - time do seu coração - e no time do Comercial de Campo Grande, até perceber que o seu destino era ensinar. Ao pendurar as chuteiras, Pedro iniciou a faculdade de Educação Física em Andradina; as dificuldades da época não o impediram de continuar tentando - cada obstáculo lhe dava mais forças para seguir seu grande sonho de inserir as crianças no esporte.

"As dificuldades eram muitas, era mensalidade atrasada daqui e dali; mas, graças a Deus, corremos atrás e superamos as dificuldades. Hoje estou tendo o prazer de sentir essa felicidade - de sempre estar com as crianças, que é o meu dom; é meu eu; meu ego; acho que Deus me pôs na Terra para isso" - diz.

O professor tem 30 anos de história, somente no futebol; antes, passou pela guarda-mirim no ano de 1969 e foi um dos fundadores da Banda Marcial Cristo Redentor - que no ano passado celebrou 50 anos de muitas emoções e música.

Pedro aprofundou sua paixão nacional - o futebol - fundando a ‘Escolinha do Professor Pedrinho’ em 1986, onde até hoje dá aulas práticas de respeito, coragem, estratégia e resiliência - valores fundamentais para fazer bonito no jogo da vida.

Por ano, são cerca de 200 alunos – aproximadamente, 30 crianças para cada faixa etária - que treinam todos os dias no Recanto do Galo. "Eu não tirava nem férias, porque normalmente, no período das férias, é que surgiam os torneios e campeonatos mais valiosos" - conta.

Os alunos da Escolinha do Pedrinho são estimulados a praticar futebol e outras atividades físicas; têm reforço na educação e nas atividades culturais, tornando-se um instrumento de inclusão, mas sem perder o caráter de diversão. Mesmo em épocas de recesso ele continua trabalhando com a colônia de férias para as crianças, na intenção de não deixá-las na ociosidade.

Houve épocas em que a Escolinha estava sem recursos para atender à demanda de crianças; no entanto, o trabalho dos voluntários foi essencial para o projeto continuar. O conselho dos pais, criado por Pedrinho, deu uma dinâmica de companheirismo, cooperação, cumplicidade e persistência, como em um jogo real; o grupo de pais voluntários auxilia em diversas atividades da escolinha. "A família tem de estar envolvida; tem de saber onde e como os filhos estão. Os pais ajudam muito, meus melhores ajudantes são os pais das crianças" - diz.

 

Aposentadoria

Funcionário da SEJUVEL, o Professor Pedrinho agora se aposenta. Mesmo com o gosto de missão cumprida ele não quer deixar os campos e, principalmente, a criançada.

"Eu gostaria muito de não parar, de não sair aqui do Galo de jeito nenhum. Gostaria de continuar aqui, fazendo o meu trabalho, junto com o Recanto do Galo. Tenho conversado com o pessoal da SEJUVEL - que me ajudou muito, em todos os anos que venho trabalhando; já conversei até com nosso próprio prefeito e ele está sabendo da minha vontade de ficar" - diz.

Na vida do educador o futebol é mais que um esporte - é um norte. A maior parte do seu tempo é dedicada a ensinar às crianças o valor da educação dentro e fora dos campos. Segundo ele, a aposentadoria não o impedirá a dar continuidade a essa trajetória. "Não consigo parar; mesmo que eu não fique por aqui, ainda vou procurar um lugar para continuar trabalhando com as crianças. Mesmo aposentado, estou na área, se Deus quiser" - desabafa.

Hall da fama

No país do futebol, milhares de meninos e meninas nutrem o sonho de se tornar um jogador profissional e vestir a camisa de grandes clubes brasileiros. Escolas de futebol têm sido um dos principais trampolins para meninos bons de bola. Alguns alunos que passaram pelo Professor Pedrinho tiveram essa oportunidade em suas vidas e brilharam em grandes clubes.

Leandro Pereira atuou como atacante no time da Chapecoense em 2014 e no Palmeiras em 2015; atualmente, ele joga no Sport Club do Recife. Em dezembro de 2014, Leandro foi procurado pelo Corinthians e acertou sua saída para o alvinegro paulista por empréstimo; porém, o Palmeiras atravessou a negociação, fazendo uma proposta de R$ 5 milhões.

Wesley Lopes Beltrame foi revelado nas categorias de base do Santos. Wesley estreou no profissional em 2007. No mesmo ano, esteve no time júnior - campeão Paulista Sub-20. Jogou pelo Santos de 2007 até 2010; no Atlético Paranaense em 2009; no time alemão - Werder Bremen - de 2010 até 2012 e no Palmeiras, São Paulo e Sport. No dia 23 de setembro de 2010, Wesley foi convocado para amistosos da Seleção Brasileira realizados em outubro daquele ano contra as seleções do Irã e da Ucrânia.

Rafael de Souza Ferreira - o ‘Rafinha’ - também já passou pelo time do Corinthians no ano de 2008 e 2011 e no Juventus-SP.

Inspiração

Personificação do amor pelo esporte, Pedrinho estimulou a prática do futebol para muitas crianças; pelo ponto de vista de seus alunos ele é uma inspiração - um modelo a ser seguido; transformar vidas é um dos seus papéis.

João Victor Gonçalves dos Reis está na Escolinha desde os sete anos; depois de uma partida, João se apaixonou pela posição de goleiro. Atualmente, com nove anos e estudando no 5º ano ele exclama: "Nunca reprovei!". Parte disso se deve ao fato de Pedrinho incentivar as crianças a estudarem; tirar boas notas é essencial para fazer parte do time. "Não tenho palavras para falar o que ele é pra mim; uma pessoa que me ajudou desde que eu cheguei aqui. Não sabia o que era chutar uma bola - foi ele que me ensinou tudo. Ele é uma das pessoas mais importantes da minha vida, porque ele me acolheu. Do jeito que eu comecei, ruim, vários professores não iriam querer que eu treinasse por causa da minha habilidade; mas, o professor para mim é tudo" - afirma João.

Os ensinamentos desse mestre atravessaram gerações. Osvaldo Sabino Ferreira Neto - de

37 anos - fez aulas na Escolinha aos 12 anos - no mesmo campo jogou seu filho, Lucas Oliveira de 20 anos e Eduardo Sabino de 10 anos que começaram a frequentar o campo desde os quatro anos de idade.

"Minha família inteira jogou aqui mesmo no Galo - nos campos de terra. Professor Pedrinho ensina respeito ao próximo; ele é uma pessoa muito religiosa - a importância dele não é só com o futebol, mas também com o social, com a família. Meus filhos aprenderam com o Pedrinho como eu aprendi" - afirma.

"Eu só tenho a agradecer pelo ótimo trabalho que ele faz com a molecada. Nós ficamos felizes por um lado, porque trabalhamos a vida inteira esperando para nos aposentarmos; mas, também ficamos tristes porque há muitas crianças aqui que gostam não só do futebol, mas também do Pedrinho; uma possível saída dele pode dispersar as crianças" - completa.

"As menores notas de João são de 7,5" - diz Antônio João de Moraes dos Reis - 44 anos - pai de João Victor e voluntário na equipe do Galo. Ele afirma que o comportamento e as notas do filho melhoraram muito após começar a frequentar a Escolinha no Recanto do Galo.

"Sou um pai bem presente; não falto a nenhum treino, nenhum jogo. Onde tem jogo eu ajudo; e ajudo a lavar os uniformes também; os pais

colaboram com sabão em pó - tem o lanche que os pais também trazem. É uma escolinha que envolve toda família" - relata.

Antônio João - ou apenas ‘João’ como é chamado pela criançada – não economiza em elogios ao Pedrinho. "O Pedrinho é como se fosse meu pai. Estou com ele há dois anos e falo uma coisa: um professor como esse aqui vai ser difícil conseguir para a garotada" - comenta.

Profissional do futebol amador no MS, Edilson Antônio - conhecido como Tupãzinho - chegou a Três Lagoas em 1989; mesmo ano em que conheceu o trabalho do Pedrinho.

"Tornamo-nos amigos; jogamos juntos; fomos campeões juntos. O Pedrinho é referência; o respeito que as pessoas têm por ele é muito bonito. Hoje, tenho o prazer de ser amigo da família; ele é uma pessoa que admiro muito" - diz.

"O mais importante que acho nesses projetos é a pessoa fazer com amor. 'Ele dá e ele cobra' - o aluno precisa ir bem na escola, em casa e com a família" - destaca.